domingo, março 13, 2011
Judith Butler recusa prêmio por racismo de organizadores
Quando penso no que significa, hoje, aceitar um tal tipo de prêmio, eu acredito que perderia minha coragem se simplesmente aceitasse o preço sob as presentes condições políticas. Por exemplo: alguns dos organizadores fizeram explicitamente declarações racistas ou não se distanciaram delas. As organizações premiadores recusam-se a entender políticas anti-racistas como uma parte essencial do seu trabalho. Tendo dito isso, devo me distanciar da cumplicidade com o racismo, incluindo o racismo anti-islâmico.
Nós todos notamos que pessoas gays, bissexuais, lésbicas, trans e queer podem ser instrumentalizadas por aqueles que desejam fomentar guerras, isso é, guerras culturais contra imigrantes, por meio da islamofobia forçada e guerras militares contra o Iraque e o Afeganistão. Nestes tempos e por estes meios, nós somos recrutados para o nacionalismo e para o militarismo. Atualmente, muitos governos europeus dizem que nossos direitos gays, lésbicos e queers devem ser protegidos, e somos levados a acreditar que o novo ódio contra imigrantes é necessário para nos proteger. Então devemos dizer não a esse compromisso. Ser capaz de dizer não sob estas circunstâncias é o que eu chamo coragem. Mas quem diz não? E quem experimenta racismo? Quem são as/os queers que realmente lutam contra esse tipo de política?
Se eu fosse aceitar um prêmio por coragem, eu teria que passar esse prêmio para aqueles que realmente demonstram coragem. Se eu pudesse, o passaria para os seguintes grupos que são corajosos, aqui e agora:
1) GLADT: Gays e Lésbicas da Turquia. Esta é uma auto-organização queer de imigrantes. Este grupo trabalha, com muito sucesso, nas áreas de discriminação múltipla, homofobia, transfobia, sexismo e racismo.
2) LesMigraS: Imigrantes Lésbicas e Lésbicas Negras é uma divisão anti-violência e anti-discriminação do Lesbenberatung (Conselho Lésbico) de Berlim. Tem trabalhado com sucesso por dez anos. Eles trabalham nas áreas de discriminação múltipla, auto-empoderamento e trabalho antirracista.
3) SUSPECT: Um grupo pequeno de queers que estabeleceram um movimento anti-violência. Eles afirmam que não é possível lutar contra a homofobia sem também lutar contra o racismo.
4) ReachOut é um centro de aconselhamento para vítimas de violência de extrema direita, racista, antissemita, homofóbica e transfóbica em Berlim.
Sim, e todos estes são grupos que trabalham ao Transgenialer CSD [associação responsável pela parada do orgulho LGBT alternativa de Berlim], que lhes dá forma, luta contra a homofobia, a transfobia, o sexismo, o racismo e o militarismo e que – em oposição ao CSD comercial ["Christopher Street Day", equivalente alemão do dia da parada brasileira do orgulho LGBT] – não mudaram a data do seu evento em função da Copa do Mundo.
Eu gostaria, então, de saudar esses grupos por sua coragem; peço desculpas por, sob estas circunstâncias, não poder aceitar o prêmio.
sexta-feira, dezembro 31, 2010
Sobre o arquivamento do PLC 122/2006
segunda-feira, outubro 12, 2009
Por ocasião do dia das crianças
Fui assistir Hamelin no CCBB.
Ao final, longos aplausos. Silêncio. As pessoas arrastavam-se pra fora de um funeral. No caixão, nós mesmos.
A peça trata da pedofilia, ponto. Não sei o que dizer sobre o assunto. Meu conhecimento se limita ao cinema: Sleepers é Holywood reforçando o tabu e nossa sede de sangue, enquanto Mysterious Skin é Sundance pondo o espectador nos sapatos do abusado e humanizando a história toda (desnecessário dizer que Sundance é muito melhor sucedida na educação sentimental); Hamelin é europeu, trata da questão pela razão, pela palavra.
Eu não vou falar sobre a peça, mas sobre o presunto chorado.
Há algum tempo fui a uma delegacia de periferia acompanhar a rotina. O terceiro, quarto inquérito que eu abro trata de um senhor suspeito de aliciar menores (“Alicear”... será que devemos o termo à Lewis Carroll?).
Inquérito pode ser uma leitura interessante porque não fala só o técnico, o juiz ou o advogado formado para conformar a realidade – tem o depoimento do leigo. Então li o que várias mães falavam desse tal senhor de sessenta e poucos anos, que pedia para as crianças e adolescentes olharem para ele enquanto se masturbava por uns trocados, doces e quetais. Várias mães, várias crianças, um só velho. O que você, raro leitor destas linhas, pensa assim que lê esta informação?
Porque – veja – a primeira coisa em que as mães focaram foi o velhinho, invocando a linguagem da repressão que devem conhecer tão bem. “Velho tarado, vou falar com a polícia”, e daí o inquérito. E assim pensa o grosso da sociedade: o velhinho é o problema. E se você coloca alguém que partilha esse entendimento do mundo te representando, obviamente que a política não vai ser outra: repressão aos velhinhos tarados. E qual a resposta? Castração química, como já se tentou? Banco de DNA ou cadastro nacional dos criminosos,
Vendo Hamelin, revisitou-me o pensamento que tive na delegacia: creche e escola, de preferência de tempo integral, que são direitos fundamentais, garantidos na constituição:
“Art.7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:
“XXV – assistência gratuita aos filhos e dependentes desde o nascimento até 5 (cinco) anos de idade em creches e pré-escolas”.
“Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à (...) educação (...), além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.”
Então, eu voto nas creches e na escola em tempo integral – o velhinho tarado eu não sei resolver. Mas as mães não foram procurar a subprefeitura; foram à delegacia…
É exatamente contra esse entendimento tosco de si mesmos – uma turba de mônadas, distintas entre si ao ponto do irreconhecimento de uma na outra, o mito burguês feito carne – que as crianças e adolescentes deveriam ser formados nessas creches e escolas, que se dedicariam a formar cidadãos com visão do comum e experiência na participação dos destinos dos outros.
sexta-feira, março 20, 2009
Nem toda nudez será castigada

A PM impediu a Pedalada Pelada deste ano. A justificativa do major Senaubar é risível: “Aqui não é Sambódromo. Não estamos no carnaval. Se alguém mostrar o bumbum, pode ser detido”.
Não por acaso a ameaça de prisão feita pelo membro da PM tem fundamento no crime de ato obsceno, previsto no código penal de 1940 do então ditador Getúlio Vargas. Diz o artigo 233 do código: “Praticar ato obsceno em lugar público, ou aberto ou exposto ao público: Pena - detenção, de três meses a um ano, ou multa”.
Mas o que é “ato obsceno”? A lei, como qualquer um pode perceber, é absurdamente vaga e serve de cheque em branco para os juízes de moralidade mais sensível. O crime deve ter seus contornos bem delineados a fim de que o cidadão saiba quais seus limites, e isso é tanto mais verdadeiro porque uma condenação pode afetar gravemente a vida do indivíduo.
Situação semelhante já passou pelo Supremo Tribunal Federal: o diretor de teatro Gerald Thomas fora acusado de cometer ato obsceno por ter mostrado a bunda e simulado masturbar-se após receber vaias. Os membros da mais alta corte brasileira – ainda que em decisão apertada – entenderam que o contexto do suposto ato obsceno não ensejava ofensa ao pudor público. Ora, o contexto da pedalada pelada tampouco permite presumir obscenidade!
Parece ser um caso clássico de sopesamento de valores constitucionais: há dano à moralidade pública ou à liberdade de expressão, de reunião e locomoção? Sendo evidente a resposta, não haveria crime, seja porque não há tipicidade material, seja porque se exerce regularmente o direito de reunião e manifestação.
Assim, qualquer associação de ciclistas, de proteção aos direitos civis ou a própria defensoria pública estadual poderia promover um hábeas corpus coletivo preventivo, antes da realização da próxima edição do evento em
Mas e se não for concedida a ordem pelo judiciário? O corajoso ciclista terá pouco a temer: ainda que o flagrante autorize que PMs conduzam o ciclista coercitivamente a juizado ou delegacia, a prisão só ocorrerá se o ciclista recusar-se a comparecer, em um outro dia, perante o magistrado.
O texto da lei é bastante claro: “Ao autor do fato [o ciclista] que, após a lavratura do termo, for imediatamente encaminhado ao juizado ou assumir o compromisso de a ele comparecer, não se imporá prisão em flagrante, nem se exigirá fiança” (JEC: 69, par. único), ou seja: os PMs podem levar os ciclistas para o juizado ou autoridade policial e relatar o ocorrido em um termo circunstanciado (relatório do PM sobre o flagrante), mas NÃO podem prender o ciclista se ele se comprometer, por escrito, a aparecer noutra oportunidade.
O pior já passou. Esse termo circunstanciado não “suja ficha” ou aparece em folha de antecedentes. Daqui em diante, caberá ao Ministério Público encaminhar o processo, podendo pedir sua suspensão se o ciclista nunca tiver sido condenado criminalmente nem tiver processo criminal correndo contra ele. Se ficar comprovado que o acusado não oferece risco algum à sociedade, nem outro processo criminal for instaurado contra o acusado nesse período, o processo termina sem complicações para o ciclista.
De qualquer forma, recebida a denúncia pelo juiz, o ciclista poderá a qualquer momento procurar seu advogado ou a defensoria pública estadual a fim de impetrar um hábeas corpus para impedir que o processo continue, demonstrando-se a falta de justa causa da ação com argumentos semelhantes aos já mencionados.
Na remotíssima hipótese de condenação, o ciclista poderá sofrer a pena de multa (cujo valor varia de acordo com a situação econômica do condenado) ou detenção por até um ano. “Detenção” significa que a pena deverá ser cumprida inicialmente em regime semi-aberto, ou seja, em colônia agrícola ou estabelecimento parecido. Como há pouquíssimos desses estabelecimentos, o condenado deverá cumprir a pena em regime domiciliar. Assim, para a tão temida prisão, o ciclista desnudo não poderá ir. Enfatizamos que a possibilidade de condenação à pena de detenção é ínfima.
Muitos devem ter receio quanto a perder a primariedade. Lembre-se que apenas no muito improvável caso de condenação à detenção – ou seja, apenas se o juiz entender, no final do processo, que o ciclista realmente cometeu o crime de ato obsceno e mandar o réu cumprir pena de detenção – o ciclista perderia sua primariedade e, mesmo assim, apenas por cinco anos após o cumprimento da pena.
Por fim, não custa repetir o óbvio: os PMs dificilmente se darão ao trabalho de prender uma centena de ciclistas pelados, ou seja, se todos tirarem a roupa, há muito mais chances de que ninguém sofra amolação. Os ciclistas não podem se acostumar com essa dupla falta de espaço público: as ruas lhes pertencem, seja para se manifestarem, seja para se locomoverem.
*Foto: Silvia Ribeiro, G1.
segunda-feira, março 16, 2009
Wallerstein sobre a crise
Segue minha tradução de artigo do professor Immanuel Wallerstein, originalmente publicado na revista The Nation de 4 de março de 2009.
SIGAM O EXEMPLO DO BRASIL
Parece-me haver duas situações que requerem dois planos para a esquerda mundial, particularmente para a esquerda dos EUA. A primeira situação está no curto prazo. O mundo encontra-se em depressão profunda, que apenas ficará pior nos próximos um ou dois anos, pelo menos. O curto prazo imediato é o que preocupa a maioria das pessoas que estão enfrentando desemprego, renda seriamente diminuída e, em vários casos, perda da moradia. Se os movimentos de esquerda não tiverem planos para esse curto prazo, eles não podem conectar-se em nenhum sentido significativo com a maioria das pessoas.
A segunda situação consiste na crise estrutural do capitalismo como um sistema mundial, que enfrentará, na minha opinião, sua derrocada certa nos próximos vinte a quarenta anos. Esse é o médio prazo. E se a esquerda não tiver planos para esse médio prazo, o que substituir o capitalismo como sistema mundial será algo pior, provavelmente muito pior, do que o sistema terrível em que vimos vivendo nos últimos cinco séculos.
As duas situações exigem táticas diferentes, ainda que combinadas. Qual é nossa situação de curto prazo? Os Estados Unidos elegeram um presidente centrista, cujas inclinações são um tanto à esquerda do centro. A esquerda, ou sua maioria, votou nele por duas razões. A alternativa era pior, muito pior. Então nós votamos no menor dos males. A segunda razão é que pensamos que a eleição de Obama abriria espaço para os movimentos sociais de esquerda.
O problema que a esquerda enfrenta não é nada novo. Roosevelt em 1933, Attlee em 1945, Mitterrand em 1981, Mandela em 1994, Lula em 2002 foram todos os Obamas de seus lugares e épocas. E a lista poderia ser expandida ao infinito. O que a esquerda faz quando estes personagens “decepcionam”, como todos devem fazer, já que são todos centristas, ainda que à esquerda do centro?
Para mim, a única atitude sensata é aquela tomada pelo grande, poderoso e militante movimento dos sem-terra (MST) no Brasil. O MST apoiou Lula em 2002 e, apesar de tudo que ele prometera fazer e deixou de cumprir, eles apoiaram sua reeleição em 2006. Eles fizeram-no com total consciência das limitações do seu governo, porque a alternativa era bem pior. O que eles também fizeram, no entanto, foi manter constante pressão sobre o governo – encontrando com ele, denunciando-o publicamente quando merecia e organizando as bases contra suas falhas.
O MST seria um bom modelo para a esquerda dos EUA se nós tivéssemos qualquer coisa similar em termos de um movimento social forte. Nós não temos, mas isso não nos deve impedir de tentar montar um da melhor maneira que pudermos e fazê-lo da maneira que faz o MST – pressionar Obama aberta, pública e duramente – a todo tempo e, obviamente, encorajá-lo quando fizer a coisa certa. O que queremos de Obama não é transformação social. Ele não deseja nem é capaz de oferecer-nos isso. Nós queremos dele medidas que minimizarão a dor e sofrimento da maioria das pessoas agora mesmo. Isso ele pode fazer e é aí que a pressão sobre ele poderá fazer diferença.
O médio prazo é bastante diferente. E aqui Obama é irrelevante, como são todos os outros governos centro-esquerdistas. O que está acontecendo é a desintegração do capitalismo como sistema mundial, não porque ele não pode garantir o bem estar para a grande maioria (ele nunca poderia fazer isso) mas porque ele não pode mais assegurar que os capitalistas terão a acumulação de capital sem fim que é sua razão de ser. Nós chegamos a um momento em que nem capitalistas de visão nem seus oponentes (nós) estão tentando preservar o sistema. Ambos estamos tentando estabelecer um novo sistema, mas claro que nós temos idéias muito diferentes, na verdade radicalmente opostas, sobre a natureza de tal sistema.
Porque o sistema afastou-se muito do equilíbrio, tornou-se caótico. Nós estamos vendo flutuações violentas em todos os indicadores econômicos de costume – os preços das commodities, o valor relativo das moedas, os níveis reais de tributação, a quantidade de itens produzidos e comercializados. Como ninguém sabe realmente, praticamente de um dia para outro, para onde esses indicadores irão, ninguém pode sensatamente planejar nada.
Em tal situação, ninguém tem certeza sobre quais medidas serão melhores, quaisquer que sejam suas políticas. Esta confusão intelectual prática empresta-se à demagogia frenética de todos os tipos. O sistema está bifurcando-se, o que significa que em vinte ou quarenta anos haverá um novo sistema, que criará ordem desse caos. Mas nós não sabemos no que consistirá esse sistema.
O que nós podemos fazer? Primeiramente, nós devemos ter claro sobre o que é a batalha. Trata-se da batalha entre o espírito de Davos (por um novo sistema que não seja capitalismo mas que é, no entanto, hierárquico, explorativo e polarizador) e o espírito de Porto Alegre (um sistema novo que é relativamente democrático e relativamente igualitário). Nenhum mal menor aqui. É um ou outro.
O que deve a esquerda fazer? Promover a claridade intelectual sobre a escolha fundamental. Então organizar em milhares de níveis e em milhares de direções a fim de empurrar as coisas na direção certa. A primeira coisa a fazer é encorajar a descomodificação de tudo que pudermos descomodificar. A segunda é experimentar com todos os tipos de novos estruturas que fazem mais sentido em termos de justiça global e sanidade ecológica. E a terceira coisa que nós devemos fazer é encorajar o otimismo sóbrio. A vitória está longe de certa. Mas é possível.
Assim, para resumir: trabalhar no curto prazo para minimizar a dor, e no médio prazo garantir que o novo sistema que emergirá seja melhor e não pior. Mas fazer este último sem triunfalismo e sabendo que a luta será tremendamente difícil.
domingo, maio 25, 2008
A Parada acaba na Consolação
“Um filósofo comparou, certa vez, a alma humana com uma casa sem janelas. (...) acho mais acertado que essas casas tenham janelas, mas que deixam passar ao interior uma parte pequena e dispersa dos fatos que estão fora.
“O momento responsável pela distorção não está tanto nas especificidades dos órgãos dos sentidos quanto na posição espiritual preocupada ou serena, (...); esta posição constitui em nossa vida o fundamento sobre o qual se configuram todas nossas experiências, e imprime-lhes o caráter. A possibilidade de compreensão entre os homens depende, além da imediata e eficaz exigência do destino externo, desse fundamento. (...)
“Conheço apenas um tipo de golpe de vento que pode abrir amplamente as janelas das casas: o sofrimento comum.”
Domingo, dia do senhor. Relevante que a 12ª Parada GLBT realize-se num dia de folga, em que muitos não trabalham, em oposição a algum dia útil, em que realmente causaria problemas ao já demais complicada tráfego de São Paulo, forçando todos a tomar partido, até os mais desinteressados. Creio ilustrativo esse fato: afinal os gays não querem problema, mas tão somente adaptar-se, serem aceitos pelos outros/héteros, ganharem a igualdade de que são merecedores.
A questão do reconhecimento da união homossexual como sociedade familiar está sendo discutida pela quarta turma do STJ, no recurso especial 820.475; por enquanto, há dois Ministros favoráveis ao reconhecimento e outros dois contrários, pendendo desempate da nomeação de um novo Ministro para a vaga de Hélio Quaglia Barbosa, falecido há pouco tempo.
Outras questões relacionadas vêm recebendo tratamento da jurisprudência, em tendência favorável aos homossexuais, ou mesmo do Executivo: apesar de inexistir previsão legal de crimes de ódio contra homossexuais, o Estado de SP regulou as condutas administrativamente (lei 10.498/01). Tudo isso não poderia ser diferente: a igualdade, como já disse a um grande amigo, deverá vir por faltar conflito material suficiente para a manutenção do preconceito contra homossexuais.
Esbocei ao amigo uma metanarrativa para a fonte desse preconceito, que creio residir nas necessidades originais da sociedade. Sabe-se que a família foi constantemente a unidade básica e elementar de acumulação e reprodução da riqueza, representada principalmente pela terra. Aqui, devemos entender “família” no sentido antigo: um conjunto de pessoas, uma “casa” – um “gen” romano, talvez. A primordialidade da família sobreviveu à Antiguidade romana, bem como o Medievo – tome-se “Montaillou”, por exemplo: o autor, a partir dos registros inquisitoriais de um processo medieval da Igreja contra um bando de heréticos na França, nota a centralidade do “ostal”, um conceito muito mais amplo do que o de família usado atualmente, na vida dos perseguidos. Os membros da família não eram senão (permita-se a tautologia) membros da família, partes de um todo mais importante que precisava ser preservado a qualquer custo. Nesse contexto, a homossexualidade talvez ameaçasse este modelo de sociedade, vez que se homens e mulheres não cumprissem sua função reprodutiva, não garantiriam a preservação da casa.
Com a industrialização e urbanização, as famílias começam a se fragmentar e perder seus moldes originais, assim como a razão de ser do modo antigo. A função principal da família deixa de ser o acúmulo e transmissão de capital para ser a reunião de unidades de consumo. Afinal, a partir do capitalismo, o indivíduo é o centro, e a família interessa na medida em que, agregando-se indivíduos, consome-se mais. A ideologia, no entanto, custa a absorver essa mudança.
Assim, o preconceito contra o homossexual deixa de ter base na realidade material, porque não cumpre função nenhuma, senão a de bode expiatório para alguns grupos de religiosos fundamentalistas e políticos conservadores. Daí a luta pela igualdade dos homossexuais ter vitória certa, do que já há sinais onde quer que o capitalismo laico seja suficientemente desenvolvido (África do Sul, Holanda, Inglaterra, Canadá, Espanha): a igualdade dos homossexuais na medida do capital é completamente merecida.
Os homossexuais, no entanto, não podem limitar-se a essa igualdade do capital. Devem reunir-se aos outros grupos sociais, igualmente vítimas e cúmplices do sistema atual, para emprestar maior força às suas propostas e implementá-las: ao negro da Educafro, às mães católicas pelo direito de decidir, ao índio sem Raposa do Sol, à empregada doméstica sem direitos trabalhistas, enfim, a todos aqueles que pretendem mudar a sociedade. Une-os, como lembra Horkheimer, o sofrimento causado pelo capitalismo irracional e o horizonte da transformação do homem, transformação que deve ser informada por suas diferentes experiências e necessidades. A Parada não deve acabar na Consolação, com uns poucos direitos capitalistas, mas almejar a totalidade e avançar até a efetiva liberdade do homem.
domingo, maio 18, 2008
Horror pelo assassinato de crianças
"O ministro Napoleão (...), do Superior Tribunal de Justiça (STJ), indeferiu o pedido de liminar feito pela defesa do casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá. Eles são acusados da morte da menina de cinco anos Isabella Nardoni, filha de Alexandre e enteada de Anna Carolina, no dia 29 de março de 2008,
Se alguém julgar o horror do mundo atual pelo assassinato sexual, especialmente pelo ataque a crianças, poderia imaginar que, para este mundo, a vida do homem e o desenvolvimento saudável do indivíduo são valores sagrados. Agora, relevando que a ojeriza a esse tipo de crime, em geral, tem fontes psíquicas específicas, centenas de milhares de crianças morrem pelas condições deste mundo presente, e para a maioria das crianças que sobrevivem, se lhes converte a realidade em inferno, pelo que não se produz nenhuma ojeriza nos corações facilmente inflamáveis. As crianças pobres são, na paz, o futuro material da exploração e, na guerra, o objetivo das bombas e dos gases tóxicos. Os senhores do mundo se horrorizam muito injustamente. (Escrito entre 1925 e 1930 por HORKHEIMER, Max, Ocaso, Barcelona: Anthropos, 1986, p. 155.)
domingo, maio 11, 2008
Alerta de Vírus, por Ana Rüsche
ALERTA DE VÍRUS
: os invisíveis mandam dizer
maio | brasil
media docena de poemas cortitos
||à prova de impressão||
hecho para gente com curiosidade en las manos
que dios nos agarre confesados.
whiteout
(sinto que houve
uma chuva de estrelas cadentes na pele
mas é tanta cidade iluminada que não se vê mais as constelações
que desenho para meu amor, minhas rotas de escuros)
fui eu quem fiquei com os últimos cães da matilha
que por amizade são os únicos que desembestam o trenó,
agora que não podemos mais andar.
fomos nós os abandonados quando a base se fechou
para este inverno grosso
de ouvidos cerrados de gelo essa verdade entra como pau duro no teu ouvido
agora é essa tua mão
direita que desliza cirurgicamente fria
e move algo nessa tela
onde esculpe e escalpela novamente
minhas brancas estalactites cravejadas de dores
sem me tocar
você que me lê agora,
onde esteve por todos esses dias cegos?
(make a wish)
soletrando o cruzeiro do sul
i.
: queria te escrever um poema assim, muy lindo,
mas era tanto tanto que nunca seria escrito, sabe?
exatamente o que se perde é o que se gostaria de estar ali
a poesia só consegue cantar
(nesse pobre estado de permanente saudade)
sobre tudo que já não está mais ali
como essa areinha fina que faz cócegas nas calçadas
como esses poços escuros entre as estrelas que me olham tuas pupilas
ii.
Baby, en serio que así uno ya no sabe dónde empieza la ficción y
termina lo que es. Epígrafe retira de El Libro de A, volume ii
amor, hoje quem brilha é a estrela de magalhães
acima desses céus febris e chuvosos de ontem à noite
e a constelação do centauro, este meio-niño, meio-mulher,
apresenta-se como o profeta que indica o caminho
: no hay camino.
e assim confiante, prossigo a escrever
poemas em branco
que por absolutamente não existirem
podem soar todos sonhos de ruas e linhas de estrelas que se cruzam
iii.
o dia tão clarificado novamente
apaga uma a uma dessas letras em brancolimpo-limpol.
mas é como tinta negrafresca da madrugada
a poesia que nos falou ainda ontem
ela hoje cedo que nos desfigura a navalhadas lentas
fundas e sem norte
iv.
como eu imagino vc assobiando
(esse meu amor, supernova lado b,
coisa rara de uma constelação sem luz)
: os novos invisíveis mandam dizer
- que meu poema pesa uma tonelada
e se deus quiser descer pra vê, que desça armado
v.
hoje escrevo para os mortos
e por isso as letras não são
aqui na selva há um nevoeiro pesado
ofuscante branco
que oculta os meninos que fodem um formigueiro em terra viva
hahahá riem os canos dos soldados
que escondidas essas mulheres grávidas baioneteadas
outras menos mais mulheres troca-trocam fuzis por piratas de comédias românticas
ah, ofusca-nos, meu jesus niño de ojos tristes
e como prosseguir?
a poesia desfaz-se nessas paragens brancas
mal risco
macula-se
do próprio desaparecimento
special tanks for nação zumbi
pela artilharia pesada de 1 tonelada de surdez
rachando os batentes aqui dentro quando os ouço nesse quase todo-o-dia
e dedico ao alan, como tudo, como sempre
pelas mais bellas estrellas oscuras, me ensinaram a enxergar.
this work is in public domain
this trabajo is in público dominio, ese
esta obra es del dominio público
essa obra és del dominio público
essa obra está em domínio público
we have no miedo about la boa y old fashioned pirataria,
nem of their nobles sponsors
NT: e caros devoradores de poetas vanguardistas europeos muertos – esses poemas no son inéditos y fueran todos desperdiçados no |blogue : peixe de aquário|