domingo, setembro 09, 2007

História da merda



"The men whose actions the historian studies were not isolated individuals acting in a vacuum: they acted in the context, and under the impulse, of a past society." EH Carr, What is History?

Antes que minha raiva arrefeça, escrevo estas linhas. Acabo de assistir ao primeiro episódio de “É muita história”, criação dos jornalistas Eduardo Bueno e Pedro Bial veiculada no programa dominical “Fantástico”, da rede Globo. Foram alguns minutos dedicados a repisar uma anedota – nada mais – já famosa: dom Pedro declarara a independência num dia de caganeira, logo após ter lido cartas de Leopoldina instando-o a tomar posição.

Bueno e Bial concentraram-se, assim, nas motivações pessoais que teriam levado o príncipe a proclamar a separação de Portugal: a paixão pela marquesa de Santos, um tabefe de uma escrava no dia anterior, a comida de beira de estrada etc. para, enfim, derrubar a veracidade do quadro de Pedro Américo, reproduzido acima. No final, os jornalistas afirmam que a história está sempre se refazendo, que são muitos os pontos de vista e que a história é feita de gente como a gente, de carne, ossos e intestinos.

Afinal, seria a independência brasileira um mero produto de desarranjos intestinais, ou, antes, o resenhado quadro global?

Hei de reconhecer que fatores individuais pesam em fatos históricos: o caráter de Stálin deve ter reforçado a violência da repressão soviética, assim como o anti-semitismo de Hitler deve ter intensificado a Shoah. Tampouco tenho a pretensão de exigir profundidade de um programa de poucos minutos, que inevitavelmente não poderia dar conta de uma série de acontecimentos, decorridos ao longo de anos, da qual o grito às margens do Ipiranga tenha sido apenas o ápice.

Porém, o Estado brasileiro concedeu a freqüência de transmissão à rede Globo para, teoricamente e dentre outras coisas, esclarecer o povo brasileiro; a Globo, portanto, deveria usar melhor sua oportunidade, para dizer o mínimo. O programa apenas reforçou duas linhas abomináveis dentro da historiografia: o culto às personalidades e o antiquarismo.

A independência surge, aos olhos do espectador brasileiro, como fruto da instabilidade física e emocional do governante da época, nada tendo que ver com interesses de estamentos locais ou, quem ousaria?, do povo. Trata-se de uma anedota, um “causo” curioso para uma conversa de bar, em cuja defesa um historiador do século XIX poderia dizer “es wie eigentlich gewesen”, mas que nada esclarece.

O telespectador foi feito telespectador duas vezes: por assistir TV e por novamente ser jogado pra escanteio como agente de sua história.

O site do “Fantástico” tinha um chat com Bueno marcado para as dez horas da noite de hoje, domingo, 09/09/2007, mas que até as 22:30 não havia começado. Estas teriam sido minhas perguntas ao respeitável jornalista feito historiador:

(i) O senhor não acredita ser um pouco irresponsável dedicar minutos da atenção de milhões de brasileiros a desmascarar um quadro de Pedro Américo com uma anedota, em oposição a um esclarecimento maior, ainda que superficial, da série de acontecimentos que levaram à independência brasileira?

(ii) O senhor não acha que, a partir do programa, milhões vão achar que a independência se deveu à disenteria de dom Pedro, reforçando a história de grandes personalidades que correntes historiográficas mais recentes tentam desbancar, a fim de conscientizar o povo de seu potencial transformador?