Segue minha tradução de artigo do professor Immanuel Wallerstein, originalmente publicado na revista The Nation de 4 de março de 2009.
SIGAM O EXEMPLO DO BRASIL
Parece-me haver duas situações que requerem dois planos para a esquerda mundial, particularmente para a esquerda dos EUA. A primeira situação está no curto prazo. O mundo encontra-se em depressão profunda, que apenas ficará pior nos próximos um ou dois anos, pelo menos. O curto prazo imediato é o que preocupa a maioria das pessoas que estão enfrentando desemprego, renda seriamente diminuída e, em vários casos, perda da moradia. Se os movimentos de esquerda não tiverem planos para esse curto prazo, eles não podem conectar-se em nenhum sentido significativo com a maioria das pessoas.
A segunda situação consiste na crise estrutural do capitalismo como um sistema mundial, que enfrentará, na minha opinião, sua derrocada certa nos próximos vinte a quarenta anos. Esse é o médio prazo. E se a esquerda não tiver planos para esse médio prazo, o que substituir o capitalismo como sistema mundial será algo pior, provavelmente muito pior, do que o sistema terrível em que vimos vivendo nos últimos cinco séculos.
As duas situações exigem táticas diferentes, ainda que combinadas. Qual é nossa situação de curto prazo? Os Estados Unidos elegeram um presidente centrista, cujas inclinações são um tanto à esquerda do centro. A esquerda, ou sua maioria, votou nele por duas razões. A alternativa era pior, muito pior. Então nós votamos no menor dos males. A segunda razão é que pensamos que a eleição de Obama abriria espaço para os movimentos sociais de esquerda.
O problema que a esquerda enfrenta não é nada novo. Roosevelt em 1933, Attlee em 1945, Mitterrand em 1981, Mandela em 1994, Lula em 2002 foram todos os Obamas de seus lugares e épocas. E a lista poderia ser expandida ao infinito. O que a esquerda faz quando estes personagens “decepcionam”, como todos devem fazer, já que são todos centristas, ainda que à esquerda do centro?
Para mim, a única atitude sensata é aquela tomada pelo grande, poderoso e militante movimento dos sem-terra (MST) no Brasil. O MST apoiou Lula em 2002 e, apesar de tudo que ele prometera fazer e deixou de cumprir, eles apoiaram sua reeleição em 2006. Eles fizeram-no com total consciência das limitações do seu governo, porque a alternativa era bem pior. O que eles também fizeram, no entanto, foi manter constante pressão sobre o governo – encontrando com ele, denunciando-o publicamente quando merecia e organizando as bases contra suas falhas.
O MST seria um bom modelo para a esquerda dos EUA se nós tivéssemos qualquer coisa similar em termos de um movimento social forte. Nós não temos, mas isso não nos deve impedir de tentar montar um da melhor maneira que pudermos e fazê-lo da maneira que faz o MST – pressionar Obama aberta, pública e duramente – a todo tempo e, obviamente, encorajá-lo quando fizer a coisa certa. O que queremos de Obama não é transformação social. Ele não deseja nem é capaz de oferecer-nos isso. Nós queremos dele medidas que minimizarão a dor e sofrimento da maioria das pessoas agora mesmo. Isso ele pode fazer e é aí que a pressão sobre ele poderá fazer diferença.
O médio prazo é bastante diferente. E aqui Obama é irrelevante, como são todos os outros governos centro-esquerdistas. O que está acontecendo é a desintegração do capitalismo como sistema mundial, não porque ele não pode garantir o bem estar para a grande maioria (ele nunca poderia fazer isso) mas porque ele não pode mais assegurar que os capitalistas terão a acumulação de capital sem fim que é sua razão de ser. Nós chegamos a um momento em que nem capitalistas de visão nem seus oponentes (nós) estão tentando preservar o sistema. Ambos estamos tentando estabelecer um novo sistema, mas claro que nós temos idéias muito diferentes, na verdade radicalmente opostas, sobre a natureza de tal sistema.
Porque o sistema afastou-se muito do equilíbrio, tornou-se caótico. Nós estamos vendo flutuações violentas em todos os indicadores econômicos de costume – os preços das commodities, o valor relativo das moedas, os níveis reais de tributação, a quantidade de itens produzidos e comercializados. Como ninguém sabe realmente, praticamente de um dia para outro, para onde esses indicadores irão, ninguém pode sensatamente planejar nada.
Em tal situação, ninguém tem certeza sobre quais medidas serão melhores, quaisquer que sejam suas políticas. Esta confusão intelectual prática empresta-se à demagogia frenética de todos os tipos. O sistema está bifurcando-se, o que significa que em vinte ou quarenta anos haverá um novo sistema, que criará ordem desse caos. Mas nós não sabemos no que consistirá esse sistema.
O que nós podemos fazer? Primeiramente, nós devemos ter claro sobre o que é a batalha. Trata-se da batalha entre o espírito de Davos (por um novo sistema que não seja capitalismo mas que é, no entanto, hierárquico, explorativo e polarizador) e o espírito de Porto Alegre (um sistema novo que é relativamente democrático e relativamente igualitário). Nenhum mal menor aqui. É um ou outro.
O que deve a esquerda fazer? Promover a claridade intelectual sobre a escolha fundamental. Então organizar em milhares de níveis e em milhares de direções a fim de empurrar as coisas na direção certa. A primeira coisa a fazer é encorajar a descomodificação de tudo que pudermos descomodificar. A segunda é experimentar com todos os tipos de novos estruturas que fazem mais sentido em termos de justiça global e sanidade ecológica. E a terceira coisa que nós devemos fazer é encorajar o otimismo sóbrio. A vitória está longe de certa. Mas é possível.
Assim, para resumir: trabalhar no curto prazo para minimizar a dor, e no médio prazo garantir que o novo sistema que emergirá seja melhor e não pior. Mas fazer este último sem triunfalismo e sabendo que a luta será tremendamente difícil.