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domingo, março 13, 2011

Judith Butler recusa prêmio por racismo de organizadores

em 2010, a filósofa Judith Butler recusou um prêmio chamado "Coragem Civil", por entender que membros da organização premiadora fizeram declarações racistas; aqui a tradução de seu discurso de recusa, cujo original encontrei no blog "Fazendo Gnero" (sim, sem "ê").

Quando penso no que significa, hoje, aceitar um tal tipo de prêmio, eu acredito que perderia minha coragem se simplesmente aceitasse o preço sob as presentes condições políticas. Por exemplo: alguns dos organizadores fizeram explicitamente declarações racistas ou não se distanciaram delas. As organizações premiadores recusam-se a entender políticas anti-racistas como uma parte essencial do seu trabalho. Tendo dito isso, devo me distanciar da cumplicidade com o racismo, incluindo o racismo anti-islâmico.

Nós todos notamos que pessoas gays, bissexuais, lésbicas, trans e queer podem ser instrumentalizadas por aqueles que desejam fomentar guerras, isso é, guerras culturais contra imigrantes, por meio da islamofobia forçada e guerras militares contra o Iraque e o Afeganistão. Nestes tempos e por estes meios, nós somos recrutados para o nacionalismo e para o militarismo. Atualmente, muitos governos europeus dizem que nossos direitos gays, lésbicos e queers devem ser protegidos, e somos levados a acreditar que o novo ódio contra imigrantes é necessário para nos proteger. Então devemos dizer não a esse compromisso. Ser capaz de dizer não sob estas circunstâncias é o que eu chamo coragem. Mas quem diz não? E quem experimenta racismo? Quem são as/os queers que realmente lutam contra esse tipo de política?

Se eu fosse aceitar um prêmio por coragem, eu teria que passar esse prêmio para aqueles que realmente demonstram coragem. Se eu pudesse, o passaria para os seguintes grupos que são corajosos, aqui e agora:

1) GLADT: Gays e Lésbicas da Turquia. Esta é uma auto-organização queer de imigrantes. Este grupo trabalha, com muito sucesso, nas áreas de  discriminação múltipla, homofobia, transfobia, sexismo e racismo.

2) LesMigraS: Imigrantes Lésbicas e Lésbicas Negras é uma divisão anti-violência e anti-discriminação do Lesbenberatung (Conselho Lésbico) de Berlim. Tem trabalhado com sucesso por dez anos. Eles trabalham nas áreas de discriminação múltipla, auto-empoderamento e trabalho antirracista.

3) SUSPECT: Um grupo pequeno de queers que estabeleceram um movimento anti-violência. Eles afirmam que não é possível lutar contra a homofobia sem também lutar contra o racismo.

4) ReachOut é um centro de aconselhamento para vítimas de violência de extrema direita, racista, antissemita, homofóbica e transfóbica em Berlim.

Sim, e todos estes são grupos que trabalham ao Transgenialer CSD [associação responsável pela parada do orgulho LGBT alternativa de Berlim], que lhes dá forma, luta contra a homofobia, a transfobia, o sexismo, o racismo e o militarismo e que – em oposição ao CSD comercial ["Christopher Street Day", equivalente alemão do dia da parada brasileira do orgulho LGBT] – não mudaram a data do seu evento em função da Copa do Mundo.

Eu gostaria, então, de saudar esses grupos por sua coragem; peço desculpas por, sob estas circunstâncias, não poder aceitar o prêmio.

segunda-feira, março 16, 2009

Wallerstein sobre a crise

Segue minha tradução de artigo do professor Immanuel Wallerstein, originalmente publicado na revista The Nation de 4 de março de 2009.



SIGAM O EXEMPLO DO BRASIL

Parece-me haver duas situações que requerem dois planos para a esquerda mundial, particularmente para a esquerda dos EUA. A primeira situação está no curto prazo. O mundo encontra-se em depressão profunda, que apenas ficará pior nos próximos um ou dois anos, pelo menos. O curto prazo imediato é o que preocupa a maioria das pessoas que estão enfrentando desemprego, renda seriamente diminuída e, em vários casos, perda da moradia. Se os movimentos de esquerda não tiverem planos para esse curto prazo, eles não podem conectar-se em nenhum sentido significativo com a maioria das pessoas.


A segunda situação consiste na crise estrutural do capitalismo como um sistema mundial, que enfrentará, na minha opinião, sua derrocada certa nos próximos vinte a quarenta anos. Esse é o médio prazo. E se a esquerda não tiver planos para esse médio prazo, o que substituir o capitalismo como sistema mundial será algo pior, provavelmente muito pior, do que o sistema terrível em que vimos vivendo nos últimos cinco séculos.


As duas situações exigem táticas diferentes, ainda que combinadas. Qual é nossa situação de curto prazo? Os Estados Unidos elegeram um presidente centrista, cujas inclinações são um tanto à esquerda do centro. A esquerda, ou sua maioria, votou nele por duas razões. A alternativa era pior, muito pior. Então nós votamos no menor dos males. A segunda razão é que pensamos que a eleição de Obama abriria espaço para os movimentos sociais de esquerda.


O problema que a esquerda enfrenta não é nada novo. Roosevelt em 1933, Attlee em 1945, Mitterrand em 1981, Mandela em 1994, Lula em 2002 foram todos os Obamas de seus lugares e épocas. E a lista poderia ser expandida ao infinito. O que a esquerda faz quando estes personagens “decepcionam”, como todos devem fazer, já que são todos centristas, ainda que à esquerda do centro?


Para mim, a única atitude sensata é aquela tomada pelo grande, poderoso e militante movimento dos sem-terra (MST) no Brasil. O MST apoiou Lula em 2002 e, apesar de tudo que ele prometera fazer e deixou de cumprir, eles apoiaram sua reeleição em 2006. Eles fizeram-no com total consciência das limitações do seu governo, porque a alternativa era bem pior. O que eles também fizeram, no entanto, foi manter constante pressão sobre o governo – encontrando com ele, denunciando-o publicamente quando merecia e organizando as bases contra suas falhas.


O MST seria um bom modelo para a esquerda dos EUA se nós tivéssemos qualquer coisa similar em termos de um movimento social forte. Nós não temos, mas isso não nos deve impedir de tentar montar um da melhor maneira que pudermos e fazê-lo da maneira que faz o MST – pressionar Obama aberta, pública e duramente – a todo tempo e, obviamente, encorajá-lo quando fizer a coisa certa. O que queremos de Obama não é transformação social. Ele não deseja nem é capaz de oferecer-nos isso. Nós queremos dele medidas que minimizarão a dor e sofrimento da maioria das pessoas agora mesmo. Isso ele pode fazer e é aí que a pressão sobre ele poderá fazer diferença.


O médio prazo é bastante diferente. E aqui Obama é irrelevante, como são todos os outros governos centro-esquerdistas. O que está acontecendo é a desintegração do capitalismo como sistema mundial, não porque ele não pode garantir o bem estar para a grande maioria (ele nunca poderia fazer isso) mas porque ele não pode mais assegurar que os capitalistas terão a acumulação de capital sem fim que é sua razão de ser. Nós chegamos a um momento em que nem capitalistas de visão nem seus oponentes (nós) estão tentando preservar o sistema. Ambos estamos tentando estabelecer um novo sistema, mas claro que nós temos idéias muito diferentes, na verdade radicalmente opostas, sobre a natureza de tal sistema.


Porque o sistema afastou-se muito do equilíbrio, tornou-se caótico. Nós estamos vendo flutuações violentas em todos os indicadores econômicos de costume – os preços das commodities, o valor relativo das moedas, os níveis reais de tributação, a quantidade de itens produzidos e comercializados. Como ninguém sabe realmente, praticamente de um dia para outro, para onde esses indicadores irão, ninguém pode sensatamente planejar nada.


Em tal situação, ninguém tem certeza sobre quais medidas serão melhores, quaisquer que sejam suas políticas. Esta confusão intelectual prática empresta-se à demagogia frenética de todos os tipos. O sistema está bifurcando-se, o que significa que em vinte ou quarenta anos haverá um novo sistema, que criará ordem desse caos. Mas nós não sabemos no que consistirá esse sistema.


O que nós podemos fazer? Primeiramente, nós devemos ter claro sobre o que é a batalha. Trata-se da batalha entre o espírito de Davos (por um novo sistema que não seja capitalismo mas que é, no entanto, hierárquico, explorativo e polarizador) e o espírito de Porto Alegre (um sistema novo que é relativamente democrático e relativamente igualitário). Nenhum mal menor aqui. É um ou outro.


O que deve a esquerda fazer? Promover a claridade intelectual sobre a escolha fundamental. Então organizar em milhares de níveis e em milhares de direções a fim de empurrar as coisas na direção certa. A primeira coisa a fazer é encorajar a descomodificação de tudo que pudermos descomodificar. A segunda é experimentar com todos os tipos de novos estruturas que fazem mais sentido em termos de justiça global e sanidade ecológica. E a terceira coisa que nós devemos fazer é encorajar o otimismo sóbrio. A vitória está longe de certa. Mas é possível.


Assim, para resumir: trabalhar no curto prazo para minimizar a dor, e no médio prazo garantir que o novo sistema que emergirá seja melhor e não pior. Mas fazer este último sem triunfalismo e sabendo que a luta será tremendamente difícil.