sábado, julho 22, 2006

pros brimo




Aos brimo

Falei pra ele não ir, mas o imbecil foi. Queria pegar um dinheiro, ver se conseguia tirar a gente daqui, todos os bancos fecharam; eu disse, Seu estúpido, não vale a pena, faz o que eu te digo UMA VEZ na vida, mas ele foi mesmo assim, o estúpido. Cabeça dura, seu pai. Sempre foi. Veio pra esse país que seu avô não queria nem de graça, em que cada balde de terra chafurda sob outros dois de sangue e merda. Desculpe, filho, não queria dizer palavrão. Não posso fazer menos do sonho dele. Mas é tanta coisa, tanto desconforto, você agora entende. Deixei seus avós lá, mudança de casa, outra língua, estes turcos são diferentes, e eu duvidei tanto, e seu pai insistiu sempre. E no final ele estava certo, a gente não está mal, não estava. A fábrica de móveis estava indo bem, bons sócios, o Mustafá e o Nadir. Eles que se ofereceram pro caixão. Imagina! filho, eles não têm dinheiro nem pra sair daqui com as famílias. Eu não recusei, não tenho como recusar. Seu pai é assim, eu não. O carro de capô vestido de branco, um branco branquinho, me chamou a atenção mesmo, sabe? tão branco, o vento armando o pano, alardeando alvo sob tanto sol. Fizemos isso pra avisar os judeus que nada queremos, como se fôssemos assassinos. Fomos eu, o tio do papai, que pagou o carro pro caixão, os sócios com as famílias deles, e funcionários e amigos, todos atrás daquela noiva que lhe engolira. Viemos pra cá, enterramos seu pai, aqui, do seu lado, pra te fazer companhia. Meu filho, vou deixar de lhe visitar por um tempo, mas lhe deixo meu coração, que é tudo quanto me resta. Sinto muitas saudades suas, filho, mas seu pai agora lhe faz companhia e sigo com tudo quanto amo longe de mim. Este terra tomou meu suor e lágrimas e nada de saciar ou dar fruto. Desisto deste lugar que me comeu tudo. Tomo amanhã o ônibus da embaixada, volto pros seus avós como se isso fosse possível, como se com vocês dois aqui eu pudesse continuar. Meu filho, até logo, cuide de seu pai. Amo vocês dois.


(Reportagem de Eduardo Salgado, que tá dando uma puta cobertura, cf. http://www.estado.com.br/editorias/2006/07/22/int-1.93.9.20060722.11.1.xml)

‘No primeiro dia do que era para ser uma megaoperação, o Itamaraty conseguiu retirar apenas 111 brasileiros do Líbano e da Síria. Um ônibus levando 54 passageiros saiu da frente do consulado brasileiro em Beirute pela manhã e outros dois partiram no meio da tarde de Damasco com 57, ambos com destino à Turquia. Em termos numéricos, a parte mais importante do plano era enviar veículos ao Vale do Bekaa para o transporte de cerca de 1 mil pessoas que estão lá isoladas. O acerto era de que os ônibus sairiam da Síria, entrariam em território libanês na manhã de ontem e voltariam para Damasco, de onde partiriam para a Turquia.

‘Menos de 12 horas antes do horário previsto para a chegada dos ônibus, o Itamaraty cancelou tudo, para o desespero dos brasileiros.

‘Muitos brasileiros que residem no Líbano vivem na região conhecida como Vale do Bekaa. Uma parte deles nasceu ou se naturalizou no Brasil e depois mudou para o Oriente Médio e a outra fica numa espécie de ponte aérea. Ao todo, são entre 4 mil e 5 mil pessoas. Ontem, depois do cancelamento, o clima na região era de total abatimento e desamparo. "Viajar daqui para Beirute eu não vou nem morto", diz Nagib Barakat, filho do brasileiro que morreu quando três mísseis israelenses atingiram sua fábrica de móveis, a Florence, na quarta-feira. A única estrada que restou entre a região e a capital libanesa é de fato perigosa. Na descida para Zahle, duas carcaças de caminhão e um carro destruído ainda estão no mesmo lugar onde foram alvejados na quarta-feira. Ao sul de Zahle, a estrada tem um desvio por causa da bomba que acabou com uma fábrica de vidros, matando cinco pessoas a 2 quilômetros da casa de brasileiros, também na quarta-feira.

‘A situação no vale está longe de se igualar à do sul, mas os ataques têm sido diários desde o começo desta guerra. Um dos mais recentes foi na hora do enterro de Dib Barakat, o pai de Nagib, no cemitério que fica ao lado da casa da família, a menos de 10 quilômetros da fronteira com a Síria. Algumas das poucas pessoas que se arriscam na tentativa de chegar a Beirute amarram lençóis brancos na carroceria dos carros esperando que os pilotos israelenses as poupem. Sem ter coragem ou dinheiro para sair e sem nenhuma autoridade para os resgatarem, os brasileiros do vale perderam as esperanças. Gihad Azanki, o maior organizador da retirada, diz que já desistiu: "Agora só Deus para nos ajudar." Zahra Rada Naddi implora uma resposta: "Por que não nos tiram daqui, o que está faltando, explica para mim, me diz o que é preciso fazer?"’