É o que acha o Timothy Garton Ash, na sua coluna desta quinta-feira, 20/07/2006, no The Guardian, "o" jornal. É meio lugar comum o que ele apresenta neste artigo, mas não custa conferir. Custou a mim, isso sim, traduzir a porra do artigo, mas pelo menos tenho algo pra fazer. Vale a pena conferir o saite do jornal, como sempre, mas em especial o original do artigo porque alguns dos comentários são bem escritos. Eu, particularmente, acho essa de "EUA nunca perderam guerra" escroto, no mínimo, por que perderam a guerra no Vietnã, sim sr. E Austrália não é nenhum coala de pelúcia não, tentando chupar as reservas do Timor Leste. Mas dá uma olhada aí.Líbano, Coréia do Norte, Rússia... aqui está a nova desordem multipolar mundial
O momento unipolar da supremacia americana passou. Mas a nova multipolaridade pode vir a se mostrar-se bem desagradável, de verdade
TGA em StanfordQuinta-feira, 20 de julho de 2006. The Guardian (http://www.guardian.co.uk/Columnists/Column/0,,1824515,00.html)
Bem-vindo(a) à nova desordem multipolar mundial. O estado de Israel agora está em guerra com o Resbolá, mas não com o estado do Líbano. O estado libanês não controla seu próprio território. O Irã influencia fortemente, mas não controla, o Resbolá. Refrescada pelo seu triunfo no encontro do G8 em São Petersburgo, a Rússia provavelmente tem as relações mais próximas com a Síria (para a qual fornece armas) e o Irã do que qualquer outra das potências do G8. A China também tem dedo aí, assim como as potências líderes da União Européia – que mais uma vez falharam em agir em uníssono como união Européia. Os EUA possuem as mais poderosas forças armadas que o mundo já viu, e como elas estão sendo utilizadas? Para evacuar seus cidadãos do Líbano. Se a Secretária de Estado dos EUA, Condoleeza Rice, conseguir negociar um fim à briga, só o fará através de diplomacia multilateral complexa.
Então, bem-vindo(a) à nova desordem multipolar – e adeusinho ao momento unipolar da aparentemente insuperável supremacia americana. O hiper-poder! A mega-Roma! Lembra-se disso? “Momento” acaba tendo sido a palavra certa: um breve episódio entre o fim do velho mundo bipolar da guerra fria e o início do novo mundo multipolar do século 21. Esta nova multipolaridade é o resultado de, pelo menos, três tendências. A primeira, e mais familiar, é o surgimento ou renascimento de outros estados – China, Índia, Brasil, Rússia como filho pródigo – cujos recursos de poder competem com os das potências estabelecidas do Ocidente. A segunda é o crescente poder dos atores não-estatais. Estes são dos mais diferentes tipos. Eles variam de movimentos como o Hamas, o Resbolá e a Al-Caeda, a organizações não governamentais como o Greenpeace, das grandes corporações de energia e companhias farmacêuticas a regiões e religiões. Uma terceira tendência envolve mudanças na própria “moeda” do poder.
Avanços de tecnologias com potencial violento representam que grupos muito pequenos de pessoas podem desafiar estados estabelecidos poderosos, seja pilotando um avião contra o World Trade Centre em Nova Iorque, direcionando um míssil para Haifa, enfrentando as forças armadas dos EUA no Iraque, explodindo o metrô de Londres, ou esguichando gás sarin numa passagem subterrânea de Tóquio. Avanços da tecnologia da informação e da mídia globalizada representam que as forças armadas mais poderosas da história do mundo podem perder uma guerra, não no campo de batalha de poeira e sangue, mas no campo de batalha da opinião mundial. Se você olhar para o brusco declínio da popularidade dos EUA desde 2002, mapeado pelas pesquisas de opinião da Pew Global Attitudes até em países tradicionalmente simpáticos a Washington, você poderia argumentar que é isso que vem acontecendo com os EUA.
O efeito final destas tendências disparatadas é a redução do poder relativo dos estados ocidentais estabelecidos, sobretudo os EUA. Pouco reparado por muitos, e obscurecido pela continuada retórica belicosa sobre a qual escrevi há duas semanas, a administração Bush de fato ajustou-se a esta realidade durante o segundo mandato do presidente. Desde 2005, numa estratégia articulada por Rice, ela [a administração Bush] deu um jeito não somente nos dois outros membros do “eixo do mal”, Irã e Coréia do Norte, mas também na maioria dos outros desafios, através de diplomacia multilateral – ainda que sempre insistisse que a opção do uso da força permanecesse sobre a mesa.
Esta estratégia foi minada pela concentração maciça de tempo e recursos no Iraque, e pela relutância em tomar parte em negociações bilaterais diretas com regimes desagradáveis, tais como o Irã, mas a política externa americana de 2006 é certamente distinta daquela de 2003, de quando a guerra contra o Iraque foi declarada. A Coréia do Norte testa mísseis capazes de carregar explosivos, explosivos estes que ela já está produzindo? Washington diz: volte pras negociações multilaterais! Irã retoma o enriquecimento de urânio? Washington diz: nós vamos levar isso pra ONU! Resbolá lança mísseis contra Israel? Washington diz: a hora diplomacia chegou!
Quando Jacques Chirac falou com gosto acerca da multipolaridade, lá em 2003, ele combinou duas afirmações: que o mundo é multipolar, e que isso é uma boa coisa. A primeira provou estar certa. A segunda tem que ser confirmada ainda. Para começar, importa bastante dizer se se trata de uma ordem multipolar ou de uma desordem multipolar. Ordem é um valor prestigiadíssimo nas relações internacionais. Ele evita que um monte de gente seja assassinada. No momento, nós temos uma desordem multipolar, e não é claro qual a forma que uma nova ordem multipolar pode tomar. Historicamente, a emergência de novas potências, acotovelando-se por uma posição, aumentou as chances de violência. Assim replicou a autoridade de dentro das fronteiras.
Nós, internacionalistas liberais, sonhamos com um mundo de estados amantes da paz, respeitadores dos direitos humanos, que trabalhem através de alianças e organizações internacionais dentro das estruturas do direito internacional. Imagine 192 vezes o Canadá. Algumas das potências que estão crescendo acomodam-se bem nessa visão: Canadá e Austrália, por exemplo, cujos recursos naturais os farão mais importantes no futuro; mas também, em boa medida, a Índia e o Brasil. A China e a Rússia definitivamente não o fazem, assim como não o fazem muitos dos atores não-estatais que ora fazem parte da política do mundo. Henry Kissinger sugeriu que a geopolítica da Ásia no século 21 pode parecer aquela da Europa do século 19, com as grandes potências fazendo de tudo por uma posição, usando a guerra como continuação da política por outros meios. Mas pode ser pior. Pode ser aquele tipo de rivalidade entre grandes potências numa escala mundial, mais terroristas. E corporações. E comunidades religiosas transnacionais. E ONGs internacionais. Não se sugeriu nenhuma equivalência moral entre estes diferentes tipos de atores, mas o que todos têm em comum é que eles não cabem certinho numa ordem mundial de estados.
O que nós estamos testemunhando por cima da fronteira entre Israel e Líbano pode ser apenas um prelúdio. Quando Tony Blair tiver há muito ido, e a presença Anglo-Americana no Iraque for reduzida a reles símbolo, nós poderemos nos lembrar dos antigos avisos de Blair – tão desgraçadamente levado para a guerra contra o Iraque – a respeito do perigo da combinação de armas de destruição em massa, terrorismo e estados debilitados. Proliferação nuclear – a proliferação de armas de destruição em massa em si – é um dos maiores perigos dos nossos tempos. Está lá em cima, junto com aquecimento global, e é tão difícil quanto aquele para ser administrado. Parece-me sustentável dizer que o risco de uma guerra nuclear é maior agora do que em qualquer outra época desde a crise dos mísseis de 1962, ainda que a escala da possível deflagração seja bem menor. Quem estaria disposto a apostar que nós não veremos uma arma nuclear lançada raivosamente nos próximos 10 anos? Eu não estaria. E você?
Então, tome cuidado com o que deseja. Em tese, multipolaridade é um avanço com relação à unipolaridade pela mesma razão que é sábio ter uma divisão bem ordenada de poderes numa democracia. Mas é um avanço apenas se vem como uma versão da ordem liberal – com tanto o adjetivo como o substantivo tendo a mesma importância. Se, no entanto, os eventos desta semana forem uma amostra do que vem pela frente, a nova desordem multipolar mundial pode ser bem desagradável mesmo. E então você poderá até sentir saudades dos velhos maus tempos da supremacia americana.